terça-feira, 4 de janeiro de 2005

Corpos...

Tinham identidade, história, família e amigos. Tinham preocupações, alegrias e tristezas, sorrisos inesquecíveis, lagrimas legitimas.
Alguns tinham fome, outros fartura. Tinham nacionalidade, crenças e valores. Outros tinham apenas a vida...
Hoje são todos iguais. Já se perderam da idade e são apenas corpos. Corpos e mais corpos. Aos milhares. Indiferenciados. Sem identidade, sem nada. São apenas corpos. Carne em decomposição. Corpos petrificados e inchados pela água. Muitos ainda no meio dos escombros outros envoltos em sacos de plástico ou pedaços de pano. Corpos atirados em gestos mecânicos para valas comuns. Corpos condenados a serem apenas mais um de entre um sem número de outros corpos. Um número demasiado grande.
Mas tem de ser assim. Não há tempo. Não há morgues, só mortos. Amontoados e em putrefação.
A corrida contra o tempo parece perdida e as epidemias inevitáveis. O desamparo é total. A fome, as doenças, a desidratação, o desespero. Tudo pode matar a qualquer momento. Não há ajuda nem compreensão que algum dia possa vir a ser suficiente.
Não houve vidas poupadas. Todos perderam alguém que amavam. Pais, filhos, irmãos, avós, netos, primos, tios, maridos, mulheres, amores, amigos... pessoas.
A dor da perda suplanta a dor dos ferimentos e da própria morte. A suposta alegria de simplesmente estar vivo não chega para reconstruir a alma despedaçada que jamais irá sarar do sentir escapar dos braços os que se amam.
A descoberta de cada sobrevivente e as alegrias pessoais parecem actos criminosos perante tamanha tragédia. O Mundo chora o número de corpos. As famílias choram as pessoas, as identidades, as histórias, as relações, os afectos.
Muitos serão eternamente apenas corpos. Milhares de corpos. Muitos eram crianças.
Crianças como as que conhecemos.
Não é preciso fechar os olhos para as imaginar deliciadas a brincar à beira mar na hesitação de molhar os pés enquanto lhes explicam que o mar é amigo. Mas o mar veio e não levou apenas os castelos ou bonecos desenhados na areia.
Não é preciso fechar os olhos para imaginar os seus sorrisos enquanto dormiam, as birras que faziam, as caras ensonadas, a segurança que sentiam nos braços dos pais ou nas mãos dadas aos irmãos.
Milhares de crianças que já não são crianças, são apenas corpos.
E há quem no meio deste cenário, em vez de imaginar essas crianças, se preocupe com o orgulho patriota e o heroísmo de uma construção portuguesa que até agora ninguém sabia que existia e que resistiu à força das águas. Absurdo. Obsceno.
É anunciado com drama o desaparecimento de oito portugueses. Oito.
As lagrimas pelos milhares de desaparecidos não têm nacionalidade. Basta uma vida roubada para ser demasiado mas não por ser portuguesa, indonésia, tailandesa ou indiana mas sim por ser vida.
Foram Milhares e Milhares e Milhares de vidas. E por cá, há quem reze por oito desaparecidos. Oito.

3 Tosquias:

Blogger Pedro diz...

Genialmente arrepiante.
Arrepiantemente genial.
Não é um trocadilho. São dois commentários isolados um do outro.
Os dois sério. Os dois verdadeiros.

Se eu um dia escrever um livro, tu escreverás o prefácio. E uma coisa te garanto: O prefácio venderá muito mais que o livro.
Tenho dito.

4 de janeiro de 2005 às 11:22  
Blogger Gabriel diz...

Cada vez + a frase que nos "aproximou" tem de fazer + sentido! "Carpe Diem" até que a incerteza desta vida nos leve para o outro lado + cedo ou + tarde vai acontecer e eu espero ter vivido e não apenas respirado e sobrevivido!
:(

5 de janeiro de 2005 às 21:51  
Blogger Pedro diz...

A morte é, por si só, uma lotaria.
Quando nascemos, compramos o primeiro bilhete e ao longo da vida vamos adquirindo outros, pelos actos, pelas circunstâncias, pelas vivências.
É uma lotaria que todos os dias anda à roda. E há quem tem muitos bilhetes para esta lotaria: os fumadores, os alcoólicos, os condutores irresponsáveis, os condutores irresponsáveis e alcoólicos, os desprevenidos, os que estavam descontraidamente em locais calmos que em um segundo se tornam perigosos.
E não vale a pena ser prevenido, não vale a pena ser cauteloso. Esta é a única lotaria que sai a todos.
E sabem do pior?
A lotaria tanto sai hoje a quem tem muitos e muitos e muitos bilhetes por queimar como sai amanhã a quem passou a vida toda sem comprar mais bilhetes ou a quem simplesmente ainda não teve sequer idade para descobrir que tem do lado esquerdo do peito uma bomba relógio à espera, à espreita, um bilhete com ganas de ser premiado.

6 de janeiro de 2005 às 12:46  

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